setembro 18, 2013

É que eu te esqueci

Estava chovendo. Os pingos na janela me deram a dica. E o barulho. Aquele barulho calmante da chuva.  Esfriou, assim de repente. Ontem mesmo estava reclamando do calor.  Andei até o armário, o chão frio me causava um calafrio que percorria todo meu corpo.  Meu chinelo, olhei pelo chão, mas não o achei. Continuei. Em um dos dois únicos quartos do meu apartamento estava o armário com as colchas e lençóis. O abri, segurando algumas coisas para que não caíssem sobre mim. Peguei a colorida. Olhando os remendos que formavam desenhos lembro-me de minha mãe sentada na cadeira velha da sala, a colcha sobre sua perna. Eu costumava me sentar ao seu lado e seguir com os olhos a linha que passava para dentro e para fora numa rapidez incrível. Muitas vezes acabava dormindo e ela me enrolava com a mesma colcha que estava fazendo. Ainda sinto seu cheiro na colcha. Enrolo-a pelo meu corpo frio e volto à sala. 

Na televisão, esta passando o jornal com a apresentadora forçando o sorriso de dentes brancos e certos. Olho pela janela já estava de noite e acabei não percebendo. O controle...achei. Passando pelos canais paro raramente em alguns que poderiam me interessar, mas acabo mudando. 

Levanto novamente, dessa vez para a cozinha. Pego o chocolate quente em cima da pia de mármore frio. Tomo cuidado para não derramar o líquido no piso já sujo e arranhado da cozinha. 

Passo pelo som rapidamente, mas volto. As letras do botão ligar já desapareceram, se não o tivesse a tanto tempo, talvez não soubesse como liga-lo. Passando pelas músicas eu paro em uma. A que mais me trás lembranças, tristes, alegres, boas e ruins. Forço meu corpo para clicar no botão avançar, mas ele não me obedece. Fico ali parada sem um mínimo movimento. Imagens passam por minha cabeça, tento pensar em outra coisa mais não consigo. Apoio o copo quente sobre a mesa e me jogo no sofá, deixando as ondas sonoras entrarem em meu tímpano e embalhararem meus pensamento. Essa era a minha e a sua música preferida. A nossa música, só nossa. Aquela que nos descrevia e nos acolhia em um dia de insegurança. 

Penso em nós dois sentados na grama verde e alta do parque, você sistematicamente colocando algumas mechas de meu cabelo atrás da minha orelha e dizendo que eu deveria pintar mais. Hoje, os quadros estão empilhados no canto da sala. Eu tentei continuar. Parei, me lembra demais você.  E no final, eu fico com dor. Dor no coração.

Olho para o quadro pendurado na sala. Foi o única que eu deixei. Eu não queimei os outras, só tirei do meu campo de visão. Nela tinha nós dois. Juntos. Juntinhos mesmo, abraçados com um sorriso enorme no rosto. Estávamos na praia e os raios solares em seu cabelo o deixavam com uma tonalidade linda. Um tom de dourado. Talvez você nunca tivesse percebido os meus. São castanhos claros, mas tanto faz.  
Lembro-me também, da vez que colocamos essa mesma música e você saiu comigo dançando pela sala. 
Eu não sabia dançar e você me ensinava cada passo tin tin por tin tin. Estávamos tão perto um do outro que respirávamos o mesmo ar. Às vezes ficava tonta e me afastava um pouco para conseguir respirar. Você continuava com uma mão em minha cintura e a outra grudada na minha, dançando pelo ar.  Seguindo o ritmo da música, nós girávamos mais rápido ou mais devagar.

Sinto falto de seus braços por um minuto. Eles eram reconfortantes e seguros. O que eu estou fazendo?! Penso tentando afastar o pensamento o mais rápido possível. Balanço a cabeça tentando acabar com isso. Não funciona.

Essa música é a culpada.

Levantei correndo. Desliguei da o som tomada. A música parou. O silêncio reinou no apartamento vazio, com ainda poucos móveis. É que eu te esqueci.


Droga, eu estou enganado a mim mesma. Então, admito. Eu não esqueci você. Eu nunca vou esquecer. 

3 comentários / COMENTE TAMBÉM

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