setembro 25, 2013

Nessa grande cidade


Estava quente. Clima comum nessa cidade. Ando pelas ruas a procura de uma brisa, mesmo que diminuto. Alguns bancos sobre a sombra me chamam a atenção. Acelero o passo para que ninguém se sente antes de mim. Sinto um alívio momentâneo nas pernas, que me agradeceram por ter parado. 

Todos a minha volta andam apressadamente.

Observo algumas pessoas em especial.

Em um café perto dali, o garçom tenta equilibrar os copos sobre a bandeja. Há pessoas rindo alto até demais. Não que sua felicidade me incomode. Na verdade, eu gosto de ver as pessoas rirem. Cientistas já comprovaram que o riso faz bem a saúde. Mas pra mim, elas por um minuto só sentem a felicidade. Por um minuto elas esquecem qualquer medo ou insegurança, qualquer escuridão. A felicidade é simplesmente muito inspiradora. Da vontade de sair correndo cantando pelas ruas dessa grande cidade. Dançar como se ninguém estivesse olhando. Pular como uma criança feliz. Pular na piscina de roupa e tudo. Dormir sob a luz da lua.

Logo na porta deste mesmo café, um homem. Observo sua beleza, ou pelo menos ele deveria tê-la algum tempo atrás, hoje esta mascarada pela barba mal feita, a sujeira no rosto, o cabelo longo e embaraçado e o olhar de desesperança. Ele estica a mão ao ver alguém passar por ele. Nada. Estica novamente. Algumas moedas. Surge uma esperança, ele poderia comprar um pão e tentar aproveitá-lo pelo resto da semana. Imagino como ele poderia ter parado lá, jogado no chão frio e sujo da Zona Sul, sozinho e frustrado com a vida. Solidão? Dinheiro? Erros? Desilusão amorosa? Paro novamente e penso como o amor pode destruir. Ah, o amor. Tão puro e bonito. Tão corrosivo e cruel. Volto à realidade, fui longe demais. Meu olhos desviam novamente para o homem. Reflito um minuto sobre o quão a vida é injusta. Aquele homem é igual a mim. Ser humano. Porque enquanto as pessoas estão logo acima dele rindo e comendo em um café, ele esta sozinho, no frio?!

Em outro banco perto do que estou, vejo uma mulher. Triste. Ela procura por moedas na bolsa para juntar com as que já têm na mão. Todas juntas não dão muito mais que cinco reais.

Atravessando a rua, junto com um mar de gente, vejo um grupo de amigos conversando e se abraçando. Felizes. Correram quando perceberam o sinal estava vermelho para os pedestres. 

Do outro lado da rua, tem uma praça. Não enxergo muito bem de longe, mas ao que minha visão alcança vejo um casal se beijando. Eles olhavam um no olho do outro por algum tempo e seus lábios se encontravam novamente. Ela parou. Olhou para baixo. Ele segurou o queixo dela com delicadeza e levantou calmamente seu rosto. Seus olhos brilhavam de alegria. Os dele também. Se abraçaram. Se beijaram. Se olharam. Ficaram lá por horas fazendo as mesmas coisas, como num ciclo vicioso. Eles estavam felizes. Tão felizes que sinto um aperto no peito. Lembro-me da última vez que senti esse amor correr pelas minhas veias e embaralhar meus pensamentos. Confesso sentir falta.

Vejo uma menina retocando a maquiagem nesta mesma praça. Ela era linda e seria mais ainda sem todo aquele pó no rosto. Percebo como as pessoas se importam com as aparências. As pessoas vão olha-la. Olho em volta. Ninguém, além de mim, esta notando aquela menina, que está tão preocupada em parecer bonita. Ela é só mais uma entre um mar de gente que passam todos os dias nesse mesmo parque, nessa mesma cidade. Só mais uma. 

Vários ônibus bufam criando sinfonias. Vejo as mulheres correrem e seus filhos as seguirem. As motos produzindo um barulho ensurdecedor. 

Olhares cansados do trabalho exaustivo, que provavelmente duravam o dia inteiro, ansiosos pela tão esperada sexta-feira. Talvez uma cervejinha com os amigos. Uma balada. Um cineminha com a namorada.

Ouço pessoas gritando ao celular. Os patrões estressados. Crianças chorando. Amigas brigando. Cachorros latindo. As buzinas dos carros. Taxis amarelos

Pessoas que nem se quer sei o nome. Pessoas como eu, com problemas, emoções, carências e tristezas. Pessoas humildes ou arrogantes. Tristes e felizes. Ricas e pobres. Brancos e negros. 


Sentada nesse banco quente dessa cidade grande. Eu paro e vejo a vida passar pelos meus olhos. Anoitece e eu demoro para perceber.

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